Convivendo com a dor

Um ano se passou. Dias e meses demorados, angustiantes. E a rotina das personagens que fazem parte dessa história sofreu reviravoltas inesperadas. O bombardeio de notícias em menos de um minuto fez com que a enfermeira Hipernestre Carneiro, mãe de Aryane, perdesse as forças que a fazia salvar vidas. Descobrir que a filha havia morrido, que essa morte teria sido provocada por outra pessoa e que ela estava grávida, tirou de Hipernestre a coragem de continuar na profissão que já exercia há muitos anos.

“Eu ajudei a salvar tantas vidas, mas não me deram o direito de salvar a vida da minha filha. Eu não pude fazer um curativo, dar nenhuma assistência. Encontrei minha Thaisinha morta, num caixão. Hoje eu não consigo mais fazer o que fazia”, desabafou a ex-enfermeira. “O monstro que matou minha filha, acabou também com a minha vida, com a paz da minha família, com o meu profissionalismo”, complementou.

E as mudanças não aconteceram apenas na vida dos familiares da jovem assassinada. Luiz Paes ainda não sabe se será pronunciado e levado à júri popular, acusado de ter matado Aryane Thaís, mas vem sentindo na pela a repercussão de ser considerado o único suspeito de ter cometido o crime. O estudante, que estava no 9º período do curso que escolheu, preferiu trancar a matrícula porque não se sentia à vontade para freqüentar as aulas e encarar o preconceito de algumas pessoas pelos corredores da faculdade.

“Ele não sofreu preconceito dos amigos. Em nenhum momento foi interpelado ou mal tratado pelos colegas, mas não deixa de ter olhares, cochichos aqui e acolá, e ele trancou a matrícula porque não se sentia bem com isso”, explicou a advogado de defesa no processo, Genival Veloso. Mas, apesar de ter largado a faculdade temporariamente, Genival informou que Luiz Paes continua estagiando na Federação da Agricultura, onde o pai também trabalha.

Além de ter trancado a faculdade, o réu do processo vem se submetendo a uma terapia com psicólogos. “Só Luiz e a família sabem os danos que essa acusação irresponsável vem causando. Ele está fazendo tratamento psicológico, porque isso não deixa de trazer transtornos seríssimos”, revelou o defensor, que não permitiu que Luiz Neto e seus familiares concedessem entrevista à imprensa durante todo esse ano.

A irmã de Aryane, Thalita Carneiro - que assim como Luiz, cursava Direito na Unipê -, largou a faculdade após a morte da jovem. “Eu não faço mais o curso de Direito porque, lamentavelmente, eu o vivi antes de terminar a faculdade. Tudo o que Luiz Paes fez, a lei permite que ele faça: a lei permite que ele silencie, que ele não crie provas contra si mesmo, que aguarde julgamento em liberdade, que certos depoimentos não sejam dados”, alegou Thalita, que afirma que os danos causados pela morte de Thaís são irreversíveis.

“Hoje, eu tenho uma mãe que renunciou a vida e que vive para lutar por justiça. Mas, se essa justiça não for feita, eu não sei o que será dela. Eu tenho um irmão que mora sozinho, em uma casa que era de uma família, e que hoje não tem mais base”, disse Thalita, que revelou que o sofrimento vivido pela sua família chegou a afetar até sua filha, de quem estava grávida quando Aryane foi assassinada.

“Eu tenho uma filha de seis meses que o médico passou calmante porque ela sofreu reflexos na gravidez, de coisas que eu vivi. Hoje, eu vivo 24 horas fugindo de uma verdade e é difícil cruzar com minha mãe dentro de casa e fingir que não estou vendo o sofrimento dela”, desabafou.

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Textos: Vanessa Furtado e Priscylla Meira | Edição de conteúdo: Vanessa Furtado
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