Quase dois anos após a sanção da Lei Complementar nº 131/2009 (Lei da Transparência) os órgãos públicos paraibanos ainda não conseguiram se adequar às normas que zelam pelo combate a corrupção no país. As prefeituras, câmaras e a Assembleia Legislativa parecem ignorar a legislação federal que determina a divulgação das receitas e despesas durante o exercício administrativo. O Ministério Público da Paraíba (MPPB) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) começaram a cobrar a aplicação da lei.
No site da Assembleia Legislativa da Paraíba, por exemplo, a transparência passa longe. As únicas informações que o cidadão pode ter acesso no local são sobre os processos legislativos, ou seja, as matérias apresentadas pelos deputados disponíveis no link Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (Salp). Já os gastos dos deputados nas missões oficiais ou com as verbas de gabinete não são informados apesar da obrigatoriedade prevista em lei. Só para piorar, também não há informações sobre a frequência dos parlamentares na Casa.
A Casa não colocou em sua página na internet sequer um direcionamento para o site da Controladoria Geral do Estado, que disponibiliza informações do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siaf) com números sobre a receita e a despesa dos poderes. Apesar de uma solução alternativa, ela ainda não seria o ideal, já que é necessário detalhes sobre dados dos parlamentares, como o número do CPF para ter acesso as informações. Os registros estão no portal do governo do estado da Paraíba e podem ser vistos pelo cidadão que tenha disponibilidade de tempo e paciência para procurá-los.
O mesmo não pode ser dito do site da Câmara Municipal de João Pessoa. Apesar da frase que abre o espaço da transparência: “Nesta seção você encontra o resumo da prestação de contas da Câmara Municipal de João Pessoa, onde a transparência é levada a sério para a população”; a informação mais recente é de 2006 e, mesmo assim, traz apenas os valores mensais de arrecadação e despesa. Uma realidade bem distante da que é cobrada pela Lei da Transparência.
Nas prefeituras a situação é ainda pior. Mesmo as que possuem portal de transparência, o interessado em buscar informações certamente terá dificuldade em conseguir dados detalhados e atualizados. Nessas condições estão as páginas das prefeituras de João Pessoa, Santa Rita e Campina Grande. Já no site de Patos, o link na página principal é meramente decorativo. Estas são as cidades com mais de 100 mil habitantes e que já deveriam estar adequadas a lei desde maio do ano passado.
Na Paraíba, os sites que mais se aproximam do ideal de transparência são dos Tribunais e do Ministério Público da Paraíba. Com informações mais detalhadas dos gastos, o MPPB, por exemplo, disponibiliza para a população informações sobre despesas com viagens e pagamentos, dados dos recursos humanos, licitações, concursos e um ambiente para o internauta assistir as sessões online. Segundo o promotor Ádrio Nobre, que representa a entidade no Grupo de Trabalho do Fórum de Combate à Corrupção (Focco), é esse o sistema que deve ser ampliado para os poderes Legislativo e Executivo.
Municípios maiores têm que divulgar os balancetes
O promotor Ádrio Nobre lembra que descumprimento da legislação será o tema de um encontro entre o Focco e o MPPB no próximo dia 29. A reunião tratará especificamente da aplicação da lei nos municípios com mais de 50 mil habitantes, o que significa dez cidades em todo o estado. “Queremos saber quais as dificuldades que os municípios estão enfrentando”, declara.
No dia 28 de maio deste ano, os municípios com mais de 50 mil habitantes (num total de seis na Paraíba) terão que dispor das informações sobre os gastos. “Alguns nem têm página na internet”, ressalta o promotor. A sugestão neste caso, avalia Ádrio Nobre, é criar um sistema integrado e ordenação de despesa para que a dificuldade técnica dos gestores seja sanada sem prejuízo aos contribuintes.
Os prefeitos e presidentes das Câmaras de Vereadores das dez maiores cidades paraibanas estão sendo convocados para participar do encontro, recebendo documentos assinados pelo conselheiro Fernando Catão, presidente do Tribunal de Contas do Estado, e pelo procuradorgeral de Justiça Oswaldo Trigueiro do Valle Filho. A reunião ocorrerá às 9h, na sede do Ministério Público da Paraíba e terá finalidade pedagógica, ou seja, sem aplicação de punições.
A preocupação dos órgãos é com as cidades que terão a obrigatoriedade daqui a menos de dois meses e que ainda não sinalizam mudanças na realidade atual. Bayeux, Sousa, Cajazeiras, Cabedelo, Guarabira e Sapé vivenciam realidades parecidas quando o assunto é transparência e terão um longo caminho a percorrer para se ajustar a legislação federal.
“A folha de pagamento é uma caixa-preta dos governos”
Um projeto de lei apresentado pelo deputado Anísio Maia (PT) na Assembleia Legislativa da Paraíba durante a semana passada sugere que todos os atos oficiais dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas, Autarquias, Sociedades de Economia Mista, Fundações Públicas e Entidades Paraestatais, que impliquem na realização de despesas públicas, sejam publicados no Diário Oficial e na sua versão on-line. Segundo o parlamentar, a intenção é detalhar os gastos de um modo que ainda não é feito do estado.
O Projeto de Lei da Transparência visa especialmente publicizar as despesas dos poderes com os funcionários e expor a folha de pagamento destes órgãos. “A folha é a caixa-preta dos governos e ninguém sabe ao certo os valores pagos nas contratações de serviço e a situação real do quadro de funcionários”, justifica Anísio Maia. O petista cita como exemplo a própria Assembleia Legislativa que sequer possui portal da Transparência.
Pelo projeto apresentado, cada setor público deveráexpor em suas dependências, de forma visível a qualquer pessoa, lista nominal de servidores e funcionários, inclusive os comissionados e prestadores de serviços lotados, com a discriminação do cargo ou função e o local de seu exercício. “Não possuir página na internet não é desculpa. Toda prefeitura possui mural onde pode expôr as informações”, acrescenta o parlamentar. Resta saber se essa é outra lei que pode não sair do papel.
Lei Capiberibe
A lei 131/2009 (Capiberipe ou Transparência) é resultante de um projeto apresentado pelo ex-senador João Capiberibe (PSB-AP) e pela deputada federal Janete Capiberibe (PSB-AP). Ela fixa prazos para as administrações públicas disponibilizarem aos cidadãos, em tempo real, na internet, informações relativas às despesas efetuadas. A União é a que consegue disponibilizar seus dados com mais transparência, disponibilizando suas informações no Portal da Transparência. O prazo final para implantação do espaço é em 2013, quando os municípios com menos de 50 mil habitantes deverão se adequar à legislação.
Do jornal O Norte